(Depoimento Místico)

 

 

Rodolfo Domenico Pizzinga

Música de fundo:
New York, New York (Fred Ebb e John Kander)

Fonte: http://www.geocities.com/Broadway/Balcony/1345/

 

AS INICIAÇÕES

 

Uma Iniciação poderá acontecer em qualquer lugar, desde que esse mesmo lugar tenha sido sacralizado pelos pensamentos e pela conduta do iniciando. Preenchidas as condições de santidade requeridas, ela poderá ocorrer, e uma dessas condições é a predisponência do estudante. Portanto, não é correto admitir que uma Iniciação só possa se verificar em um Templo, em uma Loja ou em um Santuário privado. Pode suceder, sim, no conforto do lar, como também nas estepes geladas do ártico, nas areias tórridas do deserto ou em um quarto de hotel. Não esqueçamos de que o Santuário dos Santuários está em nosso interior. Quando esse Santuário é correta e dignamente acessado, a experiência mística poderá se processar. Contudo, também pode suceder que uma Iniciação só surta os efeitos iniciáticos desejados e iluminadores muitos anos depois de ter acontecido. É incrível mas é assim mesmo que uma Iniciação pode se desenovelar, principalmente se o indivíduo for um rebelde como eu. O propósito deste depoimento é discutir um dos maiores impedimentos na Via Iniciática – a vaidade – relatando didaticamente uma esperiência místico-psíquica que sucedeu comigo há mais ou menos dez anos.

 

 

 

DESENCONTROS EDUCATIVOS

 

Nesta bendita encarnação, como já tive oportunidade de relatar em outro texto que escrevi, eu me casei quatro vezes e tive dois filhos com a minha primeira mulher. Posso dizer sem errar que, maiormente, meus desencontros se deram todos no âmbito afetivo com as mulheres com quem me relacionei. Errei eu? Erraram elas? Erramos nós? Houve erro? Isso é o que menos importa, inclusive porque envolve julgamentos sobre o que é certo e o que é errado, e julgar o que quer que seja é olhar um fato qualquer de maneira pessoal, peculiar e geralmente parcial. Quem julga, de alguma forma, sempre comete algum erro de avaliação. Por outro lado, essa questão do errar é tremendamente relativa; tudo na vida acaba se configurando em parte de um somatório de experiências educativas, e, para um místico, isso é de fundamental importância. São as experiências vividas (as agradáveis e, principalmente, as desagradáveis) que moldam a personalidade e dão a força necessária para podermos seguir em frente. As experiências da vida são os verdadeiros testadores e os antênticos catalisadores da vontade, pois, como advertiu Raymund Andrea, FRC (1882/1975) em A Técnica do Discípulo, um espírito fraco e tímido, nutrido no colo macio das boas coisas da vida, sem se ter exercitado nas virtudes cardeais da paciência e da compaixão, e nada sabendo do antagonismo saudável que se mede contra forças contrárias, muito terá a superar e muito a construir naquela personalidade que agora tem de se esforçar. (Grifo meu). E também, como continua a advertir Andrea, dar a um homem de vontade fraca o nome de discípulo é uma impropriedade. Citei esses dois fragmentos para dar ênfase ao fato de que, seja o estudante de Misticismo um neófito ou um discípulo, o místico (como, na realidade, qualquer pessoa) sempre se deparará na vida com múltiplas situações difíceis e desconfortáveis – todas elas criadas por ele mesmo que porão a prova sua vontade de progredir, de servir e de vir a ser. Mas nada acontece por acaso e nada é inútil. Revoltar-se contra as aflições que a encarnação impõe a todos nós talvez seja um dos maiores erros que um místico possa cometer.

Nesse sentido, não se deve confundir rebeldia com insubordinação. Rebeldia, em seu melhor sentido, está associada à perseverança, à tenacidade e à obstinação; já a insubordinação está associada à desobediência ou a uma maior ou menor insurgência contra uma autoridade legitimamente investida ou a uma dada ordem estabelecida. Isto devidamente explicado, justifica o fato de eu me classificar como um rebelde, mas jamais como um insubordinado. Mas, se a rebeldia carreia vantagens para o rebelde, em contrapartida, é foco de desencontros, particularmente com os indolentes e com aqueles que foram acostumados e nutridos no colo macio das boas coisas da vida. Não há rebelde que não acabe pagando, em um certo sentido, o preço de sua rebeldia.

 

IGNORÂNCIA E VAIDADE

 

Apesar de ser um rebelde, sofri muito com a minha ignorância e com a minha vaidade inconsciente. E um dos maiores sofrimentos que passei em minha vida foi quando meu terceiro casamento acabou. Parecia que o Mundo havia desabado sobre a minha cabeça. Emagreci dez quilos e a minha vida foi coberta de sombras. Isto, em uma certa medida, aconteceu nos meus casamentos anteriores, só que desta vez foi muito pior, muito mais devastador. Até respirar me era penoso, e viver ou morrer, durante um curto espaço de tempo, também me foi indiferente. Mas, algo em meu interior me dizia que eu iria sair daquela situação e compreender o que estava acontecendo. Minha rebelde vontade interior de vencer aquela crise era irredutível, apesar do desânimo que tomara conta do meu ser.

Nessa ocasião eu já estava na Ordem Rosacruz AMORC há mais ou menos 25 (vinte e cinco) anos, mas nada do que eu aprendera estava sendo utilizado por mim para pôr fim àquele drama. Meus companheiros inseparáveis de suplício eram o choro permanente e a música New York, New York, e eu só me lembrava da frase; If I can make it there, I’ll make it anywhere. A coisa toda se resumia no seguinte: dor, alimentação da dor, querer sair da dor.... mas sem força para vencer e sair da dor. Minha vida se tornou um redemoinho alimentado principalmente por uma doentia falta de vontade de viver. Mas, não desisti. E que aquilo haveria de passar, isso eu tinha certeza. Sucumbir por causa de uma relação que se esgotara eu não iria mesmo permitir. Mas, que estava muito difícil e doloroso, estava, como também deve ter sido sofrido para a minha companheira, que, a partir de então, também teria de seguir sua vida. Ambos sofremos, tenho certeza. De qualquer sorte, eu suportei, com o máximo de dignidade que me foi possível, a dor e as dificuldades daquela hora sombria.

 

 

 

A FORÇA

 

Para encurtar este depoimento – que considero extremamente educativo – uma certa noite, no apart-hotel em que eu estava morando depois da separação, no auge do meu desespero, antes de ir dormir, por volta de duas horas da madrugada, tomei a decisão de fazer uma Invocação Mística que não acho conveniente reproduzi-la, mas que a Ela me referirei de Invocação à Força. Pessoas despreparadas poderiam tentar reproduzi-la e as conseqüências poderiam ser desagradáveis. Portanto, seria uma irresponsabilidade minha relatar os pormenores dessa Santa Invocação. Isto só se faz, e mesmo assim com toda a responsabilidade decorrente da decisão de fazê-lo, em casos extremamente especiais. Eu estou com 59 (cinqüenta e nove) anos e só fiz essa Invocação uma vez. Não pretendo e não vou repeti-La.

Nessa época eu estava morando sozinho em um apat-hotel no Leblon, um bairro do Rio de Janeiro. Mais ou menos uns cinco minutos depois da Bem-Aventurada Invocação a coisa começou. A Força chegou de repente. Sem aviso. Não vi a Força invocada, mas Ela estava ali, presente, amorosa, e duramente passou a me educar e a me mostrar todo o meu passado de equívocos e todas as misérias que eu havia produzido. Em suma: todas as desgraças das quais eu era o responsável. Aquilo foi simplesmente um horror. Todo o meu corpo tremia, a respiração se tornou descompassada e eu sentia claramente a energia do meu ser se esvaindo. Angústia e desespero totais e inenarráveis. Parecia que a morte havia chegado da forma mais tenebrosa e assustadora. Em um certo sentido, chegou mesmo, pois eu passei por um certo tipo de Morte Iniciática. Morri e renasci. Mas isso foi só o começo, porque durante uns 25 (vinte e cinco) minutos eu passei a limpo a minha vida. Fiquei chocado com as coisas que eu vi, pois muitas delas eu já havia esquecido e não me dava conta de quanto sofrimento eu fora capaz de produzir. Entretanto, tudo era minha responsabilidade. Nada, absolutamente nada, era, por assim dizer, culpa dos outros. A responsabilidade de tudo era somente minha. Até, inclusive, a de tentar fazer um presumido bem, quando ele não deve ou não pode ser feito, o que é um procedimento equivocado. E isso eu também fiz. Tenho que enfatizar: aquilo foi o maior horror místico-educativo que eu passei nesta vida. Nem quando vi meu demônio pessoal (aos vinte e poucos anos) foi tão assustador. Uma explicação necessária: cada um de nós tem o seu próprio demônio (ou muitos). Ele é o produto mimado e medonhamente construído por todos os maus pensamentos, todas as más palavras, todas as más ações, todas as perversas omissões, todas as cumplicidades etc. que consentimos em praticar. Essa bola demoníaca vai aumentando ao longo da vida até que nos consome inteiramente. O Eu Interior não tem mais como conviver nesse inferno e a desagregação ocorre, pois a desarmonia, nesses casos, é irreversível. Essa fragmentação do ser pode ser violenta e traumática, ou pode começar a se manifestar mais ou menos lentamente, como que a nos avisar. Mas, como na maioria das vezes não temos consciência de nossas indigências espirituais, não percebemos os avisos. E assim, padecemos... e acabamos morrendo descontroladamente, quando a dita morte deveria ser uma espécie de beijo suave e reconfortante. Simplificadamente, penso que seja isso que ocorra. Nenhum de nós precisa de um inferno mítico para temer, simplesmente porque temos a mais absurda capacidade de, dia após dia, fabricarmos o mais demoníaco dos infernos. Dentro de nós.

Chorei muito. Chorei e me envergonhei muito. Mas quando tudo acabou, lá pelas 2:30 horas da madrugada, algo de muito profundo se operara em meu ser. Posso dizer que, dentre tantos, um dos aprendizados – naquele tempo concentrado de ensinamento místico – foi o reconhecimento de minha vaidade. Isso era uma coisa que não me passava. Simplesmente eu não percebia o quanto era vaidoso. E a vaidade foi o instrumento perverso de muitas dores que causei aos outros. Mas, da mesma forma como a Força chegou, Ela partiu. Não houve apresentações em Sua chegada, nem despedidas em Sua partida. Cumprida a missão de me orientar e de me esclarecer, Ela se foi como chegou. Sou grato a tudo que aprendi naquela madrugada, mas não desejo a ninguém essa experiência. Acho mesmo que quem não estiver preparado para levar essa Surra Mística, não a levará, apesar de, na época, eu não saber a priori que aquilo iria acontecer, nem que eu seria capaz de resistir à vibração a qual fui sujeito. Se eu soubesse o que iria passar, talvez não tivesse coragem de fazer a Santa Invocação.

Mas, antes de prosseguir, direi uma coisa que geralmente não é dita. Pelo menos, não explicitamente, pois nunca a li em lugar algum da forma como a apresentarei. É impossível de se extirpar definitivamente a vaidade. Pode-se até dormir sem ela, mas acorda-se sempre com ela. Cada dia é um novo dia, e é necessário que o místico esteja atento aos seus pensamentos e às suas representações. Se ele fraquejar, escorregará; se escorregar, retrocederá; se retroceder, deverá recomeçar. Muitos são os motivos e muitas são as oportunidades para que a vaidade se manifeste. Muitos são os disfarces que autorizam a que a vaidade se expresse. E, parafraseando Raymund Andrea, porque concordo com seu pensamento, digo: o conhecimento místico pode destruir com a mesma facilidade com que pode construir; ele submete à prova a constituição do discípulo, indiferente se ele resiste ou se sucumbe. Então, o trabalho de se autoconhecer não termina jamais, e a luta contra as ilusões da astralidade devem ser diuturnas e permanentes. Ninguém deve se julgar definitivamente preparado; a Obra não tem fim.

Se me fosse possível – mas não é – eu desobrigaria a todos aqueles que me causaram algum tipo de sofrimento de passarem por qualquer tipo de compensação. Até porque, insisto, os responsáveis por nossas mazelas somos nós e mais ninguém. Então, o desejo de isentar alguém de contrabalançar um equívoco contra si pode ser uma expressão de amor, de solidariedade e de desprendimento, mas, além de ser praticamente impossível abolir a Lei, é deseducativo. O que pode ser feito é auxiliar o possível ofensor a passar por sua prova educativa de forma mais branda, mas nem por isso menos efetiva. O contrário disso é vendetta e revanche — dois absurdos primários, injustificáveis e retardativos. A vingança nunca é doce, como pensam alguns. É amarga como fel.

 

UMA ESTÓRIA

 

Enfim, auxiliar um possível transgressor a passar por sua prova educativa de forma mais branda pode ser exemplificado pela seguinte estória:

Conta-se que houve, séculos atrás, uma tribo cujo chefe era tido como superior aos chefes de todas as demais tribos. Naquela época, a superioridade era medida pela força física. Assim, a tribo mais poderosa era a que tinha o chefe mais forte.

Mas o chefe de que fala esta estória não tinha somente força física. Ele era também conhecido por sua sabedoria.

Desejando que o povo vivesse em segurança, ele criou leis abrangendo todos os aspectos da vida tribal. Eram leis severas que ele, como juiz imparcial, fazia cumprir com rigor.

Certa feita, problemas começaram acontecer na tribo. Alguém estava cometendo pequenos furtos.

O chefe reuniu a tribo e com tristeza no olhar, frisou que as leis tinham sido feitas para os proteger, para os ajudar. Como todos tinham o que necessitavam para viver, não havia motivo de ocorrerem furtos. Assim, ele estabeleceu que o responsável teria o castigo habitual aumentado de 10 para 20 chibatadas.

Os furtos, entretanto, continuaram. Ele voltou a reunir o grupo e aumentou o castigo para 30 chibatadas.

Mas os furtos não cessaram.

Por favor — pediu o chefe. — Estou suplicando. Para o bem de vocês, os furtos precisam parar. Eles estão causando sofrimento a todos nós. E aumentou o castigo para 40 chibatadas.

Naquele dia, os que estavam próximos a ele, viram que uma lágrima escorreu pela sua face, quando ele dispersou o grupo.

Finalmente, um homem veio dizer que fora identificado o autor dos furtos. A notícia se espalhou e todos se reuniram para ver quem era.

Um murmúrio de espanto percorreu a pequena multidão, quando a pessoa foi trazida por dois guardas. A face do chefe empalideceu de susto e sofrimento. Era sua própria mãe – uma senhora idosa e frágil.

Todos começaram a se questionar se o chefe seria, ainda assim, imparcial. Será que ele faria cumprir a lei? Seria o amor por sua mãe capaz de o impedir de cumprir o que ele mesmo estabelecera?

Notava-se a luta íntima do chefe que, por fim, falou:

Meu amado povo. Faço isso pela nossa segurança e pela nossa paz. As 40 chibatadas devem ser aplicadas, porque o sofrimento que este delito nos causou foi grande demais.

Acenou com a cabeça e os guardas fizeram sua mãe dar um passo à frente.

Um deles retirou o manto da velha senhora deixando à mostra suas costas ossudas e arqueadas. O carrasco, armado de chicote, se aproximou e começou a desenrolar o seu instrumento de punição.

Nesse momento, o chefe deu um passo à frente. Retirou o seu manto e todos puderam ver seus ombros largos, bronzeados e firmes. Com muito carinho, ele passou os braços ao redor de sua querida mãe, protegendo-a, por inteiro, com o próprio corpo. Ele encostou o seu rosto ao da mãe e misturou as suas lágrimas com as lágrimas dela. Murmurou-lhe algo ao ouvido e, então, fez um sinal afirmativo para o encarregado.

O homem se aproximou e desferiu nos ombros fortes e vigorosos do chefe da tribo uma chibatada após outra, até completar exatamente 40.

Foi um momento inesquecível para toda a tribo, que aprendeu, naquele dia, como se podem harmonizar com perfeição o amor e a justiça. A vergonha de ver seu filho apanhar por sua causa foi uma forma educativa de abrandar uma pena que, para uma senhora idosa, poderia ter sido fatal. E, se fosse fatal, não teria sido tão útil.

Deixo, finalmente, duas perguntas para reflexão: 1ª - Será lícito punir com chibatadas uma pessoa que padece de cleptomania (compulsão que leva um indivíduo a furtar objetos, independentemente de seu valor)? 2ª - Será lícito condenar à morte um serial killer?

Preciso, por último, esclarecer que as coisas comigo, em termos místicos, geralmente, não se repetem. Isto é: as experiências místicas marcantes pelas quais passei nesta vida aconteceram uma única vez. Não sei como essas vivências acontecem com outras pessoas, mas comigo geralmente não se repetem. E assim, a Força só me visitou uma única vez. Ensinou o que tinha que me ensinar. E eu aprendi. Houve, contudo, uma única exceção que se repetiu por três vezes. Posso dizer com segurança que não fui digno de nenhuma delas.

 

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CONCLUSÃO

 

O que de útil pode ser extraído desse depoimento? Em Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens (1752), de Matias Aires Ramos da Silva de Eça (1705-1763) – considerado o primeiro filósofo brasileiro – está a resposta: É próprio da vaidade o dar valor a muitas coisas que não o têm; e quase tudo o que a vaidade estima é vão. Mas, estou absolutamente convicto de que, na maioria das vezes, o homem é vaidoso inconscientemente. Aí, principalmente para os místicos, é que reside o grande perigo, porque estar inconsciente de sua vaidade espiritual, faz do místico escravo e agente dessa mesma vaidade. Então, pensemos novamente nas palavras de Matias Aires: A vaidade propõe, e decide logo, de sorte que quando as cousas chegam ao entendimento já este está vencido; o que faz é aprovar o preconceito anterior, que a vaidade lhe introduz, e assim quando a vaidade busca o entendimento é só por formalidade, e só para a defender, e autorizar, e não para aconselhar. O discorrer com liberdade, supõe uma exclusão de todas as paixões... Penso que nada mais precise ser dito. Mas direi: peço perdão a todos que sofreram por minha causa. E, sem qualquer resquício de onipotência, perdôo a todos que me tenham ofendido. Este sentimento está acorde com um texto que escrevi há algum tempo — A Caverna (Um Encontro Insólito com Platão) disponibilizado em:

http://paxprofundis.org/livros/caverna/caverna.htmL