Rodolfo Domenico Pizzinga

Música de fundo: Apesar de Você (Chico Buarque)

Fonte: http://wap.icarusindie.com

 

País: MARACUTSIL.

Local: Congresso Nacional.

CPMI: Corruptoduto e Outras Mumunhas Corriqueiras.

Nome do depoente: Não identificado.

Dia: Sexta-feira.

Horário: 17:33 horas.

Mês: Julho.

Ano: 2005.

Deputados presentes: Dois.

Senadores presentes: Nenhum. Corrigindo: Um – que dormiu, roncou, babou e falou dormindo durante os 13 minutos do depoimento. Ameçou ter uma crise de terror noturno, mas como a noite ainda não havia chegado ficou só no ameaço.

Imprensa: Oitenta e dois jornalistas presentes de todos os meios de comunicação cumprindo seus deveres legais e profissionais.

 

 

O  DEPOIMENTO

 

 

 

eu nome não é Rodolfo,

Nem é Domenico,

Nem é Pizzinga.

Eu nego.

Não sou brasileiro.

Portanto, não posso ser carioca.

Nem sei mais aonde nasci.

Se sabia, me esqueci.

E quando eu me esqueço de uma coisa,

Esqueço-me para sempre,

E não faço a menor questão de me lembrar!

Não tenho 59 anos.

Há muitos anos

Não faço mais anos.

Mas, por debaixo dos panos...

Eu nego e desdigo.

Nunca fui casado,

Mas sou divorciado.

Coisa de abestado

Ou de desengonçado!

E não adianta perguntar: não tenho filhos.

Nem cadilhos.

Não suporto empecilhos!

Eu nego.

Minha mãe não se chamava Carmen

E meu pai não se chamava Franco.

Nem me lembro como é que meus pais se chamavam.

Tinham nome?

Prenome?

Sobrenome?

Também nunca tive uma tia chamada Mimi.

Se tive, não a conheci.

Acho mesmo que nem sequer nasci!

Como é que eu vim parar aqui?

Xi!

Minha avó materna não era espanhola

E não tocava castanhola.

Meu avô materno não era lusitano

E morreu antes de completar um ano!

E meus avós paternos não eram calabreses.

Nem sei aonde fica a Calábria!

Existe esse lugar?

Fica perto do mar?

Nunca estudei Química,

Físico-química ou Bioquímica.

Nem fiz mestrado, nem doutorado.

Eu nego tudo isso.

Isso é coisa do Petrônio Marlos Manhães.

Eu? Alfabetizado?

Estou mais para pobre coitado!

Estou cansado de ser ridicularizado

E ultimamente vivo muito abichornado.

Não sou espiritualista nem materialista,

Nem católico nem judeu,

Nem budista nem espiritista.

Também não sou positivista nem marxista.

Neste Mundo, sou e estou extraviado.

Por isso não aceito esse tipo de acusamento.

Nunca fiz caixa dois e nem um subornamento.

Eu desminto e nego.

Ou vocês estão pensando que eu sou um prego?

Peremptoriamente e veementemente renego.

Minha consciência está tranqüila.

Para comemorar,

Depois eu vou tomar um trago de tequila

E viajar para Barranquilla!

Afinal, quem sou eu?

Serei ateu?

O que eu não suporto mesmo é um dize-tu-direi-eu.

Para Presidente do Brasil

— Grande país varonil —

Jamais votei no Lula.

Peremptoriamente eu nego.

Pudera! Não sou brasileiro.

Vou confessar: Sou Maracutsileiro.

Escorreguei!

Caí em contradição!

Confessei!

Confessei nada.

Isso tudo é uma grossa armação.

Denego, denego e denego.

Isso tudo é uma grande intrigalhada.

Coisa de gente mal-amada

Que só come rabada com rabanada!

Como é que eu posso saber

Se nem sequer eu sei ler?

Como posso estar sendo acusado de cumplicidade

Se eu estava na Ilha da Trindade?

Vai ver que essa Ilha era do Zé Trindade!

Eu simplesmente nego.

O negócio é viver na patuscada!

Compadre, vê deixa de ser ranheta

E não me comprometa.

Deixa eu chuchar um tiquinho só essa teta

Que eu não tenho vocação para Maria Antonieta!

Agora, vê me arruma aí um habeas corpus.

Preventivo, por favor.

Senão, aquele dim-dim

Você não vai ver nem a cor!

E assim, eu encerro e chego ao fim

Desse meu depoimento.

Oh! Que injusto tormento!

Isso é dose pra jumento!

 

 

 

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CONCLUSÃO

 

 

Mais ou menos assim é que têm sido os depoimentos e os acareamentos nas CPIs do Congresso Nacional neste ano de 2005 – logo bem depoisinho do carnaval. Ninguém diz lé com cré nem coisa com coisa. É tudo na base da coisa e loisa, e as Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito acabam ficando a pé. Não no Brasil. Claro! Em MARACUTSILminha terra natal, que também é muito viril. Se fosse no Brasil varonil de céu cor de anil do Barão de Itararé e do Stanislaw Ponte Preta tudo seria completamente diferente. Todo mundo falaria a verdade sem faltar um único til. Mas, na minha querida MARACUTSIL, se gritar pega ladrão... não fica um meu irmão! Nem eu escapo, ainda que eu não seja nem um pouquinho um boca de trapo. Por isso, o grande negócio da hora é andar prevenido com um habeas corpus preventivo no bolso. Junto com o preservativo, pois ninguém é de ferro. Ainda bem que em MARACUTSIL se vive o pleno Estado de Direito e o Supremo Tribunal Federal cumpre rigorosamente seus deveres e suas obrigações constitucionais. Basta perguntar ao Joca Marceu.