Rodolfo Domenico Pizzinga

Música de fundo: Black Night

Fonte: http://www.seardel.co.za/mid/B-c/

 

 

 

Olha aquela puta do outro lado...

Pertinho daquele baixinho viado!

Essa plebe não é gente.

 

 

Olha lá um preto viciado

Com cara de alucinado!

Se fosse meu parente...

 

 

Isso é mesmo uma desgraça

E uma falta de pudor.

Eu odeio essa gentaça

Que vomita impudor.

 

 

 Ouça amigo: cuidado com o maniqueísmo!1

2

Teologismo... Racismo... Sexismo... Elitismo...

 

 

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Nota

1. Maniqueísmo: dualismo religioso sincretista que se originou na Pérsia e foi amplamente difundido no Império Romano (séculos III d. C. e IV d. C.), cuja doutrina consistia basicamente em afirmar a existência de um conflito cósmico entre o reino da Luz (o Bem) e o das Sombras (o Mal), em localizar a matéria e a carne no reino das Sombras, e em afirmar que ao homem se impunha o dever de ajudar à vitória do Bem por meio de práticas ascéticas, especialmente evitando a procriação e os alimentos de origem animal. O maniqueísmo é também (toda e) qualquer visão de mundo que o divida em situações ou estados opostos e inconciliáveis. No caso deste soneto, de um lado as prostitutas, os gays e os dependentes, e de outro, os moralistas de salão, os religiosos de fim de semana (e geralmente só quando a família está por perto) e os fariseus metidos a santos.

Por outro lado, a técnica dialética do Sic et Non (sim e não, ou a favor e contra) – s.m.j. filha tardia do maniqueísmo, o que pode ser considerado um exagero ou uma heresia – do eminente e controvertido filósofo-teólogo escolástico francês Pedro Abelardo (1079-1142), considerado mesmo a figura mais prestigiosa do século XII, foi um gravíssimo autoritarismo teológico-filosófico-dialético do pensamento medieval, mas que até hoje tem seus admiradores ocultos. O Sic et Non propõe que se reúnam teses opostas sobre vários assuntos (por exemplo, em termos contemporâneos, racismo, sexismo, elitismo, economia, política, meio ambiente, eixo do mal, eixo do bem etc.), para que (dialeticamente?!) se chegue à verdade. Mas, o que é a verdade? É exatamente por causa dessa tal de verdade que o Mundo está sendo rachado ao meio neste Terceiro Milênio. De uma maneira geral – mas não absoluta – para os ocidentais, o ocidente é Sic e o oriente é Non; para os orientais, o oriente é que é Sic e o ocidente é que é Non; mas para os místicos verdadeiros ninguém (nem nada) é Sic ou é Non. Nessa linha especulativa, o máximo que eu me permito admitir é que tudo é Sic-et-Non, pois até os distanciados podem reencontrar o Caminho.

 

 

Enfim, em uma de suas cartas à jovem literata Heloísa – o grande amor da vida de Abelardo – o Escolástico escreveu: Fujo para longe de ti, evitando-te como a um inimigo, mas incessantemente te procuro em meu pensamento. Trago tua imagem em minha memória e assim me traio e me contradigo. Eu te odeio, eu te amo. Neste caso, aonde foi parar a tal verdade que Abelardo tanto procurou e tanto defendeu? No amor? Sic? Non? No ódio? Sic? Non? Na Teologia? Sic? Non? No medo do inferno? Sic? Non? No que os outros poderiam pensar? Sic? Non? Coisas como essas são verdadeiras mediocridades. Ora, quem escreve uma frase como essa está inteiramente apaixonado (de quatro, dominado, como costuma ser dito), só que, no caso de Abelardo, ele teimou em não admitir e renunciou à sua amada Heloísa por um fideísmo boçal. Medo de Deus e de pecar? Pode ser. Vergonha de sua confraria? Pode ser. Pode ser muita coisa. Inclusive covardia. Mas penso que seja, principalmente, uma antropomorfização maluca de Deus com transferência de desejos, paixões, rancores, punições e outras coisas menores para esse nível imaginário, mas tido como verdadeiro, e conseqüente subserviência a essa linha desajeitada de pensamento. Isso é tudo uma grande maluquice-prisão. Ou prisão-maluquice, que dá na mesma e não leva a lugar algum. Heloísa morreu vinte anos depois de Abelardo e, por sua vontade, foi sepultada na mesma tumba de seu amado. Sofreu o pão que o diabo amassou por causa dessa incoerência de Abelardo, que, com relação à ela, preferiu o preconceituoso Non ao ensolarado Sic. A fé de Heloísa jamais a consolou e sua vida foi miserável e povoada de lembranças. E o pobre Astrolábio – que, como o meu filho mais velho*, nasceu antes de Abelardo e Heloísa se casarem secretamente na Catedral de Notre-Dame, em Paris – como ficou nessa estória? Esse Catolicismo medieval ainda vai ter que explicar muita coisa! Mas, como eu contei um pouco mais acima, Abelardo é considerado a figura mais prestigiosa do século XII. Pode? Deve poder, mas eu não consigo compreender, pois sei que as verdadeiras figuras prestigiosas nunca mostraram suas faces publicamente.

2. Por sua própria consciência.

* Só que eu não me casei secretamente nem abandonei meu(s) filho(s). Divorciei... Mas isso é coisa da vida. Depois casei mais três vezes. E por pouco não me casei com uma prostituta.