PENSAMENTO DE PLATÃO
(FRAGMENTOS)

 

 

Platão

 

 

Rodolfo Domenico Pizzinga

 

INTRODUÇÃO

 

    Este pequeno e despretensioso texto não foi propriamente elaborado para estudantes ou para professores de Filosofia, ainda que também possa ser útil; está direcionado mais para os místicos. Por isso, escolhi alguns fragmentos específicos de sete obras de Platão – que foi Iniciado nos Mistérios no Egito Antigo – (A República, Mênon, Banquete, Fedro, Fédon, Sofista e Político) e fiz algumas edições para ajustar esses excertos à esta forma de trabalho, sem, contudo, alterar em nada o pensamento platônico. Algumas poucas animações também foram incluídas para, didaticamente, auxiliar a fixar certos conceitos que considero fundamentais.

    A maneira de aproveitar melhor um estudo como este é ler o fragmento, fechar (ou não) os olhos e tentar estabelecer mentalmente um tipo de diálogo silencioso com o conteúdo do fragmento, procurando ampliá-lo dialeticamente quando e enquanto isso for possível. Mas, melhor do que essa forma de refletir sobre cada fragmento, é deixar a Voz Silenciosa do Coração falar o que Ela tem para falar. Ela falará aos que estiverem dispostos a ouvi-La. Cada fragmento, assim, funciona como uma espécie de catalisador. Cabe a nós deixar que ele catalise o Bom, o Bem e a Beleza que já existe em nosso interior. Paz Profunda a todos.

 

 

FRAGMENTOS

 

 

 

 O supra-sumo da injustiça é parecer justo sem o ser.

 O resultado será sempre mais rico, mais belo e mais fácil quando cada pessoa fizer uma só coisa, de acordo com sua natureza e na ocasião própria, deixando em paz as outras. Cada um deve executar a sua tarefa específica de acordo com a sua natureza.

 O homem, se quiser ser brando para os familiares e para os conhecidos, tem de ser, por natureza, filósofo e amigo do saber.

 Deve-se ter em alto apreço a verdade. Procura levar até o fim o teu inquérito sobre a verdade. [A Verdade Absoluta jamais poderá ser alcançada. Isto não quer dizer que não se deva buscá-La incessante e diariamente, pois, será de verdade relativa em verdade relativa que o ser alcançará a Liberdade e a Sabedoria.].

 

 

 O maior só é maior com relação ao menor; e o menor só é menor com relação ao maior, exclusivamente.

 É impossível que o mal venha dos deuses.

 As realidades incorpóreas – que são as maiores e mais belas – revelam-se apenas à razão e somente à ela. [Eu estou convencido de que só por meio da Transrazão poder-se-á contemplar o verdadeiro e relativo Bom, o verdadeiro e relativo Belo e o verdadeiro e relativo Bem.].

 

 

 A boa qualidade do discurso, da harmonia, da graça e do ritmo depende da qualidade do caráter; não daquilo a que, sendo debilidade de espírito, chamamos familiarmente ingenuidade, mas da inteligência que verdadeiramente modela o caráter na bondade [no Bom e no Bem] e na beleza [no Belo].

 O amor verdadeiro, por sua natureza, ama com moderação e harmonia a ordem e a beleza. Nada de furioso ou de aparentado com a libertinagem deve aproximar-se do amor verdadeiro.

 O corpo não se trata por meio do corpo, mas por meio da alma, a qual, se já estiver ou ficar doente, não poderá tratar com êxito seja do que for.

 

 

 O vício não poderá jamais se conhecer a si e à virtude; ao passo que, com o tempo, a virtude – se as qualidades forem aperfeiçoadas pela educação – atingirá o conhecimento científico de si mesma e do vício. Tal será o sábio, mas não o perverso.

 Ser-se iludido sobre a verdade é um mal, e estar na verdade é um bem.

 A república, uma vez que esteja bem lançada, irá alargando como um círculo.

 Uma educação e uma instrução honestas que se conservam tornam a natureza boa, e, por sua vez, naturezas honestas que tenham recebido uma educação assim tornam-se ainda melhores do que seus antecessores, sob qualquer ponto de vista, bem como sob o da procriação, tal como sucede com os animais.

 Quando as crianças principiam por brincar honestamente adquirem a boa ordem e, com o crescimento, endireitam qualquer coisa que anteriormente tenha decaído.

 Não é pela ignorância, mas pela ciência, que se delibera bem.

 Na alma do homem há como que uma melhor parte e uma outra pior. Quando a melhor parte domina a pior, chama-se a isso um homem 'senhor de si'; porém, quando – devido a uma má educação ou a uma má companhia – a parte melhor é dominada pela superabundância da pior, o homem que se encontra nessa situação é escravo de si mesmo e libertino.

 O maior dano para uma cidade é a injustiça.

 

 

 O mesmo sujeito, na mesma parte e relativamente ao mesmo objeto, não pode produzir ao mesmo tempo resultados contrários. (Grifo meu).

 A virtude é uma espécie de saúde, de beleza e de bem-estar da alma.

 Os filósofos são aqueles que são capazes de atingir aquilo que se mantém sempre do mesmo modo; e aqueles que não o são, mas que se perdem no que é múltiplo e variável, não são filósofos. [Na verdade, sabia Platão, nada se mantém sempre do mesmo modo.].

 Os filósofos estão sempre apaixonados pelo saber que possa lhes revelar algo daquela essência que existe sempre, e que não se desvirtua jamais nem por ação da geração nem pela ação da corrupção.

 Um filósofo tem aversão à mentira e se recusa em admitir voluntariamente a falsidade.

 Poderá encontrar-se algo de mais relacionado com a sabedoria do que a verdade?

 A mesquinhez é o que há de mais contrário a uma alma que pretenda alcançar a totalidade e a universalidade do divino e do humano.

 Uma natureza covarde e grosseira não pode ter parte na vida filosófica.

 Se quiseres distinguir a alma filosófica da que o não é, observarás se, desde nova, é justa e cordata ou se é insociável e selvagem. Portanto, é impossível que a multidão seja constituída de filósofos.

 Uma natureza medíocre jamais fará algo de grande a alguém, seja a um particular, seja a uma cidade.

 Nenhum dos atuais sistemas de governo é merecedor do caráter de um filósofo. Por esse motivo é que se alteram, [se alternam] e se deterioram.

 

 

 Entre todas as constituições [formas ou sistemas políticos ou de governo], a absoluta e unicamente exata será aquela na qual os chefes [governantes] seriam possuidores da ciência verdadeira, e não de um simulacro de ciência.

 O filósofo, convivendo com o que é divino e ordenado, tornar-se-á ordenado e divino até onde é possível a um ser humano.

 As doutrinas sem base no saber são uma vergonha.

 Quando uma alma se fixa em um objeto iluminado pela verdade e pelo Ser, compreende-o, conhece-o e parece inteligente; porém, quando se fixa em um objeto ao qual se misturam as trevas – o que nasce e morre – só sabe ter opiniões, vê mal e altera o seu parecer de alto a baixo [de acordo com a situação], e parece já não ter inteligência.

 O que transmite a verdade aos objetos cognoscíveis e dá ao sujeito que conhece esse poder é a idéia de bem. (Grifo meu.). [Desde a mais remota Antigüidade, a idéia de Bem esteve associada ao Sol, e a idéia de Verdade esteve associada à Luz.].

 

 

 A idéia de bem é a causa de quanto há de justo e de belo. No mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; no mundo inteligível é ela senhora da verdade e da inteligência. É preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e na vida pública.

 A faculdade de pensar é, ao que parece, de um caráter mais divino, do que tudo o mais.

 Tem razão quem se formou por si e não deve alimentação a ninguém. [Como tem enfatizado sistematicamente o Illuminatus Frater Vicente Velado7 Ph. D., OS+B e Irmão Leigo da Ordem Rosacruz – cada um deve construir o seu próprio Mestre.].

 Convém que vão para o poder aqueles que não estejam dele enamorados.

 Dividir por gêneros e não tomar por outra uma forma que é a mesma, nem pela mesma uma forma que é a outra, é a obra da ciência denominada de Dialética.

 O dom dialético só pode ser atribuído a quem filosofa com justiça e com pureza.

 O método dialético é o único que procede – por meio da destruição das hipóteses – a caminho do autêntico princípio, a fim de tornar seguros os seus resultados, e que, realmente, arrasta [atrai], aos poucos, os olhos da alma, da espécie de lodo bárbaro em que está atolada, elevando-a às alturas. [Na escatologia popular grega da época de Platão, as almas castigadas no além jaziam no Hades atoladas em lodo.]. Quem for capaz – diz Platão – de ter uma visão de conjunto é dialético; quem o não for, não é.

 

Hades (animação pictórica)

 

 Quem é livre não deve aprender ciência alguma como uma forma de escravidão. Na alma nada permanece que tenha entrado pela violência [ou pela força.].

 O mais alto e o mais necessário de todos os bens é a justiça.

 

 

 Tudo o que nasce está sujeito à corrupção.

 

 

 Há um ser do não-ser, não somente no movimento, mas em toda a série de gêneros; pois, na verdade, em todos eles, a natureza do outro faz cada um deles outro que não o ser, e, por isso mesmo, não-ser. Assim, universalmente, por essa relação, chamaremos a todos, corretamente, não-seres, e, ao contrário, pelo fato de eles participarem do ser, diremos que são seres.

 O pensamento, a opinião e a imaginação são gêneros, em nossas almas, tanto de falsidade como de verdade.

 

 

 À imitação que se apóia na opinião daremos o nome de doxomimética; e à que se apóia na ciência o nome de mimética sábia. (Grifos meus).

 O tirano autêntico é um autêntico escravo.

 Espécies de homens e prazeres correspondentes:

 

Espécies de Homens
Prazeres Correspondentes
Filósofo
Ciência
Ambicioso
Riqueza
Interesseiro
Lucro

 

[Quando alguém lucra, alguém, obviamente, terá que perder.].

 

 A natureza do prazer que procede da contemplação do Ser é impossível a qualquer outro saboreá-la, exceto ao filósofo.

 Quando toda a alma obedece à parte filosófica e não se revolta contra nenhuma parte, é-lhe possível cumprir em tudo as suas funções e ser justa, e colher cada uma os prazeres que lhe são próprios – os de melhor qualidade e o mais verdadeiros possíveis.

 Não se deve honrar um homem acima da verdade.

 Se o medíocre se associa ao medíocre, a arte de imitar só produz mediocridades.

 A lei diz que o que há de mais belo é conservar a calma o mais possível nas desgraças e não se indignar, uma vez que não se sabe [com exatidão] o mal e o bem que há em tais acontecimentos, nem adianta nada, positivamente, em os suportar com dificuldade [ou com revolta].

 Nem tudo o que é humano merece que se lhe dê muita importância.

 Seria impiedade trair o que julgamos ser verdadeiro.

 O verdadeiro Uno, corretamente definido, só pode ser absolutamente indivisível.

 Não devemos deixar-nos arrebatar nem pelas honrarias, nem pelas riquezas nem por poder algum, descurando a justiça e as outras virtudes.

 Se o mal do corpo não provoca na alma o mal da alma, não pretendamos jamais que alma seja destruída por um mal alheio, sem a ajuda do seu próprio mal.

 Relativamente ao homem justo, que, se ficar na miséria, doente ou sob a alçada de qualquer outro desses estados considerados como maus, tal situação acabará em um benefício para ele, quer em vida, quer depois de morto. Efetivamente, os deuses nunca descuram de quem quiser empenhar-se em ser justo e em se igualar a um deus, até onde isso for possível a um homem, na prática da virtude.

 A alma é imortal e capaz de suportar todos os males e todos os bens. Toda alma é imortal porque aquilo que se move a si mesmo é imortal.

 De todos os deuses, o amor é o mais antigo, o mais augusto e o mais capaz de tornar o homem virtuoso e feliz durante a vida e após a morte.

 A música é a ciência do amor relativamente à harmonia e ao ritmo.

 Outrora, a nossa natureza era diferente da que é hoje. Havia três sexos humanos, e não apenas, como hoje, dois: o masculino e o feminino. Acrescentava-se mais um, que era composto, ao mesmo tempo, dos dois primeiros, e que, mais tarde, veio a desaparecer, deixando apenas o nome: andrógino.

 O amor que as criaturas sentem umas pelas outras tende a recompor a antiga natureza, procurando de dois fazer um só, e, assim, restaurar a antiga perfeição. O amor é o desejo de imortalidade.

 A violência é incompatível com o amor.

 É absolutamente impossível a qualquer pessoa doar aquilo que não tem e ensinar aquilo que não sabe.

 A procriação e o nascimento são coisas imortais em um ser mortal.

 A maioria dos homens não sabe que ignora a essência das coisas.

 Obtemos grandes bens de uma loucura que seja inspirada pelos deuses.

 É na Idéia Eterna que reside a Ciência Perfeita — aquela que abarca toda a verdade.

 É somente fazendo uso da recordação das Verdades Eternas que o homem poderá se tornar verdadeiramente perfeito, podendo receber em grau ótimo as consagrações dos Mistérios [Iniciação]. Um homem assim afasta-se dos interesses humanos e dirige seu espírito para os objetos divinos, embora a multidão o considere louco, sem perceber que nele habita a divindade.

Eis, pois, as duas obras da produção divina: de um lado, a coisa em si mesma; de outro, a imagem que acompanha cada coisa.

 

 

 Aquele que não foi Iniciado ou que se corrompeu não se alça com ardor para o além, isto é, para a beleza em si mesma.

 O amor daquele que não tem paixão [espiritual] – daquele que apenas possui a sabedoria mortal e que se preocupa tão-só com os bens do mundo – só gera na alma do amado a prudência do escravo à qual o vulgo dá o nome de virtude, mas que o fará vagar, privado de razão, na Terra e sob a Terra, durante nove mil anos. [Isto é: enquanto apenas possuir a sabedoria mortal e se preocupar tão-só com os bens do mundo.].

 Aquele que não estudar convenientemente Filosofia não será capaz de falar convenientemente sobre nada.

 Acreditas que seja possível conhecer a natureza da alma sem conhecer o Universo?

 Não é possível fazer discursos artísticos naturais – quer se trate de ensinar, quer se trate de persuadir – se não se conhece a verdade a respeito sobre os objetos dos quais se fala ou se escreve, se não se estiver em condições de defini-los e de dividi-los em espécies e gêneros e se não se houver estudado a natureza da alma e determinado quais gêneros de discursos se adaptam às suas espécies. Também se não se tiver redigido e ordenado o discurso de tal maneira que ofereça à alma complexa um discurso complexo e à alma simples um discurso simples. Os melhores discursos são aqueles que servem para acordar as lembranças dos conhecedores.

 O homem que realmente consagrou sua vida à Filosofia é senhor de legítima convicção no momento da morte, pois possui esperança [certeza] de ir encontrar para si, para além, excelentes bens quando estiver morto.

 Quando uma pessoa se dedica à Filosofia no sentido correto do termo, os demais ignoram que sua única ocupação [melhor: sua principal ocupação] consiste em se preparar para morrer [Viver] e em estar morto [Vivo].

 No filósofo existe a inabalável convicção de que em parte alguma, a não ser em um outro mundo [em uma outra dimensão], poderá ter acesso à pura sabedoria.

 Aprender não é outra coisa senão recordar.

 Nossa alma, antes de vir animar um corpo, existe como a própria essência, isto é: tem existência real.

 Quem não tem certeza nem sabe provar que a alma é imortal deve temer a morte, se não for um tolo.

 

 

 

 

Bibliografia

PLATÃO. A República. 5ª edição. Introdução, tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.

_______. Mênon; Banquete; Fedro. São Paulo: Editora Tecnoprint S. A., sd.

_______. Fédon; Sofista; Político. São Paulo: Editora Tecnoprint S. A., sd.

 

Música de fundo:

Greek Song - Rebetiko
(Rebetiko – o blues grego – é um tipo da música grega popular entre os povos gregos.).

Fonte:

http://www.msmusic-hellas.com/midifi.htm