Rodolfo Domenico Pizzinga

Música de fundo: The Party Is Over
Fonte: http://preview.topixa.com/shimon/

 

(Recomendo que o preâmbulo e o
poema sejam lidos com o som ligado.)

 

Preâmbulo

 

Em 6 de Dezembro de 1915, Fernando Pessoa escreveu ao seu amigo Sá Carneiro: Estou outra vez preso de todas as crises imagináveis, mas agora o assalto é total. Numa coincidência trágica desabaram sobre mim crises de várias ordens. Estou psiquicamente cercado... estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo... Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro... Dói-me a vida aos poucos, aos goles, com interstícios em chorar... A primeira parte da crise intelectual já você sabe o que é: a que apareceu agora deriva da circunstância de eu ter tomado conhecimento das doutrinas teosóficas. O modo como as conheci foi banalíssimo. Tive de traduzir livros teosóficos... Fui chamado a Paris para tomar parte num grande Congresso Trabalhista, ali realizado de 15 a 20 de julho, e passei um ou dois dias em Fontainebleau com H. P. B. [Helena Petrovna Blavatsky], que lá se encontrava para repousar por uma ou duas semanas. Encontrei-a traduzindo os maravilhosos fragmentos retirados do 'Livro dos Preceitos Áureos', agora tão bem conhecido como 'A Voz do Silêncio'. Escrevia fluentemente sem qualquer cópia diante de si e, à noite, pediu-me que lesse o texto para ver se estava num inglês decente.1

Bem, o que é a Noite Negra da Alma? Christian Bernard, 4º Imperator da Ordem Rosacruz AMORC para este Segundo Ciclo Iniciático, define: Posso dizer que, no plano individual, é um ciclo que corresponde a um questionamento do ideal seguido até então. Conforme o caso, esse questionamento pode ter origem numa série de provações que atravessamos, ou numa crise interior sem qualquer ligação com o mundo objetivo. Também pode acontecer que, continua o Imperator, por razões puramente psicológicas, que o místico se sinta invadido por impulsos interiores negativos que o levem brutalmente a rejeitar os valores em que acreditava.2

Já o português lisboeta Fernando Martini Bulhões – que primeiro vestiu hábito branco dos Cônegos de Santo Agostinho e depois e definitivamente o hábito marrom dos Franciscanos – conhecido como Santo António de Pádua, em seus estudos e reflexões filosóficas apresentou três estágios para o processo ascensional da consciência: Conticínio, Meia-Noite e Aurora. Há alguns anos fiz uma pesquisa sobre o pensamento antoniano, que acabei divulgando sobre o título Filosofia Portuguesa II: A Doutrina Mística de António de Lisboa e que pode ser visitado em:

 

http://paxprofundis.org/livros/filosofia
portuguesa2/filosofiaportuguesa2.html

 

Desse ensaio, transcreverei um pequeno excerto sobre a Noite Negra.

A NOITE MÍSTICA

A Noite Mística (Noite Negra ou Noite Obscura) da alma é o vestibular da ascensão mística. Em diversas predicações Santo António referiu-se à Noite Mística como processo necessário à purificação e preparação da alma para atuar em um plano mais elevado de consciência. Nesse sentido, o Santo referiu-se à Noite como a obscuridade dos místicos — 'mysticorum obscuritas'. A Noite não tem, ordinariamente, a duração da noite física. A Noite tem começo (Conticínio), meio (Meia-Noite) e fim (Aurora), e o tempo de duração é individual. Durante sua manifestação, a Noite tem e traz conseqüências terríveis, dentre as quais o Santo aponta: 'privação da luz da razão; o ser torna-se frágil e o conhecimento adequado de nada adianta; o eu interior fica em trevas e o homem é tentado a tudo abandonar (trevas da consciência); a claridade tentadora da prosperidade mundana entenebrece a alma e se transmuda em caligem da morte; a noite é um amplo campo de adversidade em que a alma anda às apalpadelas sem consciência de si mesma'. A Noite é, pois, uma etapa da reintegração (regeneração) do homem à sua imaculada, cósmica e divina origem. E, nesse aprendizado, terá que eliminar, minimamente, a soberba do coração, a lascívia da carne, a avareza do mundo, a ira, a vanglória, a inveja e a gula, que compõem as sete violações capitais enunciadas na teologia católica.

O Conticínio ('Conticinium')

É a primeira fase da Noite em que tudo está silente. É o tempo em que são satisfeitas as seduções blandiciosas da carne — 'carnis suavia blandimenta'. O Santo ensinou que, para vencer as tentações próprias do Conticínio, é preciso meditar sobre as iniqüidades praticadas, considerar o exílio (e desejar ardentemente a reintegração) e contemplar o Criador. Auxiliado pela razão e pela discrição, o principiante vai subindo, degrau por degrau, a escada da crucifixão: a razão dominando os sentidos e esclarecendo sobre o bom caminho. Assim, derramando lágrimas, envergonhado, vexado e cabisbaixo vai o postulante trilhando a senda que levará à iluminação. Lentamente, os sentidos físicos e os apetites do corpo vão sendo dominados, e os incipientes passam para o estádio de aproveitantes (fase da Meia-Noite). Porém, no que concerne ao sofrimento moral, este se vai intensificando. É o reconhecimento tácito da queda, do afastamento da Luz, do exílio de Deus, da consciência plena da ainda permanência nas trevas. É a angústia por desejar alcançar a Luz Maior, por desejar ardentemente realizar o Cristo Interno e, em graça total, contemplar o Criador. É o desespero por ter, tenuemente, vislumbrado a possibilidade de se tornar uno com o Pai — o Deus de seu coração — e de não ter podido ainda realizar o sonho dos sonhos. É uma dor lancinante. Um desespero sufocante. Um horror atemorizante. É a Noite Negra. É a crucificação individual. É o inferno interior. É a compreensão do exílio da Vida. A Noite Negra traz à lembrança a fase negra da Crisopéia.

A Meia-Noite ('Media Nox')

A segunda fase da Noite Obscura equivale para Santo António, ao período de luta espiritual em que a alma, vendo-se no exílio deste mundo, dele procura libertar-se... para, depois... 'poder chegar à contemplação de Deus e unir-se com Ele por amor'. O aproveitante (aproveitado) já convencido do erro da vaidade, suplica cheio de fé, de amor e de esperança, força para suportar o exílio. À medida que acorda, recorda-se da vida antiga e, envergonhado, humilhado, sentindo-se desprezível, chora amargamente. É o pleno reconhecimento do erro. Nu, perante si mesmo e perante o Criador [ele próprio], confessa-se ao Deus de seu coração e clama por perdão. E perdoa aos que o perseguem e caluniam, aos que o aviltam e ofendem, aos que escarnecem, pois sabe que esses não o compreendem, mas que, inexoravelmente, um dia subirão também o primeiro degrau da Noite Negra. E se compromete a, nessa hora, estar presente para ajudar no que for possível e permitido, para amparar em cada queda, para consolar quando a dor e a vergonha forem mais intensas. Esse é o verdadeiro sentido do perdão, da humildade, da fraternidade e do amor universal em um sentido teológico. É a tomada de consciência pelo aproveitante de que todos, em última instância são unos entre si e com o Pai, ainda que exilados. A Meia-Noite faz recordar o branco da Grande Obra. É também uma possibilidade para explicar o Mito da Caverna, de Platão. Voltar para ajudar e servir é um supremo ato de sacrifício e de amor. Aqueles que voltaram sabem. Entretanto, não há essa referência consignada na obra antoniana.

A Aurora ('Aurora')

A Aurora - bendita Aurora - é o último estágio da Noite Mística, e se assemelha ao vermelho da Alquimia Operativa. Santo António assim a delineia:

'É a infusão da graça divina.
A alma pôde... justificar-se ou tornar-se justa.
A alma se torna reta e ereta...
A Aurora é o fim da Noite e o princípio do Dia.
Ela é o fim da miséria e a entrada na beatitude...
É o último estádio da ascensão espiritual — o estado perfeito...
... a alma sente-se agora invadida por indizível alegria.
É a contemplação do Criador'.

Do exposto, pode-se simbolicamente deduzir e afirmar, que a Noite Obscura é um processo de purgação (uma verdadeira Alquimia Iniciática Interior) que o homem tem indubitavelmente que passar para alcançar o Deus de sua compreensão e realizar o Cristo interno. Iniciaticamente é desta forma que acontece. O Sol, que pretende simbolizar o Sol da Graça a ser alcançada, com sua claridade, brancura e calor, ilumina a alma em contrição. É com a luz do Sol das primeiras horas da manhã — símbolo do Sol interior — que são dissipadas as trevas da noite. É com o nascer do Sol místico que são esvaecidas a superstição e a ignorância. E o ser purificado, limpo e perfeito, entra na posse do conhecimento de seu Criador [que está, como sempre esteve e estará, em seu interior]. Esse Sol, depois de nascido, jamais se põe. Essa foi uma afirmação feita por Santo António e por todos aqueles que alcançaram a 'perfeição', e passaram pelo processo místico purgativo da Noite Negra da Alma. O ato derradeiro de humildade ao conquistar a Aurora é, assevera-se mais uma vez, o retorno à Caverna, para consolar e auxiliar os que ainda desconhecem a LLUZ. Repete-se: por evidente, esta reflexão não está presente em Frei António.

É exatamente isso, ou um pouco pior. Depende! Depende do tamanho e da intensidade das nossas paixões, dos nossos desejos e das nossas cobiças!

 

 

Estou realmente de acordo com meu Imperator Christian: no transcurso da Noite nossa fé mística vacila e se apaga por um período que dura o tempo que dura nossa persistência em não reacendê-la.3 Mas, o fato é que – também estou convicto disso – podemos entrar na Noite Negra de duas formas: consciente ou inconscientemente. Inconscientemente, penso que tenha ficado claro. Mas o pior é quando o místico resvala para essa treva conscientemente. Sabe que vai cometer uma afronta ao Cósmico... E comete! Sabe que não deve praticar um determinado ato... E pratica! Sabe que não deve nem pode... Mas faz! É uma espécie de foda-se que o indivíduo autoriza que ocorra. Depois, para sair do lamaçal em que se meteu pode demorar anos ou uma encarnação inteira! Ou várias! Ou inúmeras! Entrar na areia movediça, conscientemente, é, de certa forma, muito fácil. Basta querer e ceder. Sair... é muito difícil e doloroso. Por isso, vou recordar novamente as palavras de Raymond Bernard: 'Na Via Iniciática prestigiosa que seguimos, as tentações são numerosas, as quedas ocasionais e a dúvida periódica'. O que fica óbvio, de tudo isso, para um místico sincero? Se as tentações são numerosas, precisamos estar atentos à Sagrada Luz da qual somos portadores, defensores e fiéis depositários. Se há quedas ocasionais – e há – não devemos nos importar tanto com elas, não devemos nos punir por elas, isto é, devemos construir o futuro dia-a-dia, conscientes de que somos seres humanos, portanto falíveis e sujeitos a envergar e até a tombar. E, quanto às dúvidas que assaltam nossa consciência, isso é assim mesmo. Em um âmbito particular dessa matéria, a cada dia que passa, eu tenho mais (e mais) dúvidas do que certezas. Eu acho isso ótimo. E cada vez que (penso que) entendo alguma coisa, escrevo um texto. Como minha cachimônia não pára e como eu não sou um Tyrannosaurus, não tenho qualquer compromisso com as minhas idéias – porque são todas simplesmente relativas e mudam periodicamente como as nuvens do céu – escrevo como um alucinado na esperança de que alguém que leia essas representações, possa ser ajudado ou inspirado com esses rascunhos. Só isso.

 

 

Comigo o rolete é mais embaixo. O cara aí em cima é uma estátua e eu estou vivinho da Silva. Cai dentro malandro e diz que minhas idéias são obsoletas e que eu estou ultrapassado. Janto você sem mastigar.

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E, para que ninguém se iluda: quem mais nos testa são aqueles que estão próximos a nós, começando pelo nosso irmão monozigótico antiquus: nosso adulado Corpo Astral – nosso Mestre Maior. Mestre Maior que terá que ser substituído por um processo duplo de purga e decantação. Entenda-se 'substituído' por transmutado. E, para que ninguém se iluda, ainda: vencer a Noite Negra não significa que ela esteja derrotada para sempre. Não está. Pode voltar arquejando a qualquer instante; e isso só depende de nós. Se quisermos que ela volte, ela voltará. E como dizem que recidiva é pior do que a doença... Então, estar atento e vigilante não custa nada. E nada é 'para sempre'! Esclarecendo melhor: tudo está em perpétua transformação.

 

 

 

Noite Negra! Noite Obscura!

Noite Triste! Noite Trevosa!

Noite Sombria! Noite Escura!

Noite Polar! Noite Caliginosa!

 

 

Carícia de um desconfortável calafrio,

Tantas incertezas... Questionamentos...

O tempo não passa... Lúgubre e frio...

Choro! Angústia! Abdicação! Tormentos!

 

 

Sem pressa, o tempo passa... Sombrio...

Mas, eu ainda sinto frio! Muito frio!

Então... Oh! O tempo... Passa...

 

 

Em minha alma... Uma réstia de Luz!

Bendita Luz!  Luz da

Compreensão... Em minh'alma... Perpassa.

 

 

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Notas

1. http://www.cfh.ufsc.br/~magno/teosofiaefpessoa.htm
<Acesso em 27 de junho de 2005>.

2. BERNARD, Christian. Assim Seja. Curitiba: AMORC, 1994, p. 93.

3. Ibib., p. 94.

 

Outros Websites Consultados

http://www.pagb-photography-uk.co.uk/colourprints_2003_2.htm

http://ttbiz.ms11.net/macab.html

http://hanakoyomi.sunnyday.jp/hanahaku2-8.html

http://www.noaanews.noaa.gov/stories/images/perfectstorm.gif

http://sprott.physics.wisc.edu/fractals/collect/2000/

http://www.shiribia.it/dolphin/bacheca/bacheca43.htm

http://www.achetudoeregiao.com.br/ANIMAIS/animais_pre_historico.htm