LENDO TEXTOS E ENSAIOS
MÍSTICOS E METAFÍSICOS

Rodolfo Domenico Pizzinga

Música de fundo: Carnaval (Pout-pourri)
Fonte:
http://www.cifrantiga.hpg.ig.com.br/Crono3/midis.htm

 

Tenho observado que a imensa maioria das pessoas quando lê um texto metafísico ou um ensaio de natureza mística, geralmente faz essa leitura como se estivesse lendo um romance ou uma matéria interessante em um jornal. As pessoas gostam, elogiam o texto, apreciam as animações, mas não refletem adequadamente no que estão lendo. Chegam a fazer ilações verdadeiramente absurdas, o que é muito triste e, de certa forma, perigoso.

Por outro lado, alguém pode se concentrar em um texto esotérico, místico, metafísico etc. com esse raio de música de fundo que eu coloquei? É claro que não. Esse é um pout-pourri de músicas de carnaval, próprias, portanto, para carnaval. São músicas maravilhosas, alegres e fazem um 'bemzinho' à alma, mas não servem como companhia em uma leitura meditativa.

Foi bom te ver outra vez Zezé com essa enorme cabeleira... Vou beijar-te agora bem na frente da Turma do Funil porque é carnaval nesta Cidade Maravilhosa e há mais de mil palhaços no salão. Depois, vê se me dá um dinheiro aí! Mas que calor-ô-ô-ô-ô-ô-ô, mamãe! Eu quero é mamar! Tristeza, por favor, vê se vai para o raio que o parta bem no meio da multidão! É isso, por exemplo, o que vai na cabeça de quem lê o que quer que seja com a incômoda companhia de um fundo musical inadequado. Em outras palavras: chupar cana e assoviar não dá. Ao mesmo tempo não dá! Só se estiverem faltando um ou dois dentes na boca do cara, mas, mesmo assim, não dá. E por falar em falta de dentes, há algum tempo fiz uma homenagem ao simpático irmão aí em baixo, mas acho que nem ele é capaz de assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Olha só a alegria e os olhinhos dele!

 

 

Para se ler um texto e aproveitar o máximo da leitura há umas certas regras que devem ser obedecidas. Eu vou dizer como eu faço, e espero que possa auxiliar alguém que esteja tendo algum tipo de dificuldade ao ler ensaios que possam ser complicados ou difíceis.

Primeiro: A primeiríssima coisa é ter à disposição, seja no computador, seja em papel, um bom dicionário. Ninguém pode ler um assunto qualquer e passar por cima das palavras achando que uma palavra é mais ou menos isso ou mais ou menos aquilo. Senão, pode pensar que veemente é 'ver com a mente'! Quem não consulta freqüentemente um dicionário, acaba dizendo que o bandido criou um 'poblemaço' tensoativo(!?) e surfactante(!?) para moça que foi 'estrupada'. Há, em outra direção, pessoas que adoram esnobar, e metem palavras no que dizem ou no que escrevem sem saber o que essas palavras significam. A frase e o texto acabam ficando, sei lá, parecendo um mondrongo. E por aí vai. Espalharam por aí que o bichano aí embaixo é um chupa cabras. Acho esse simpático animal mais parecido com certos textos que eu leio de quando em quando.

 

 

Português é muito difícil, e por mais que se conheça a língua haveremos de escorregar. Eu, particularmente, tenho uma dificuldade infernal com os ques, os quês, os porques, os por ques, os por quês e os porquês. Faltou algum? Esse troço é mesmo um inferno! Recentemente escrevi pressionar com c – 'precionar' – e ontem digitei paralisar com z — 'paralizar'! Ora, pressionar vem de pressão (pressão sobre alguma coisa) e paralisar (quase que meto um z de novo!) vem de paralisia (ser atingido por paralisia). Então, para evitar amolação, dicionário na mão evita escorregão no meio do salão. Não apenas para procurarmos falar e escrever corretamente (sinceramente acho isso irrelevante, pois, o que vale é a mensagem), mas, primordialmente, para compreendermos adequadamente o sentido de um vocábulo que se desconhece.

Segundo: Para se ler um texto esotérico, 'mágicko' místico, metafísico simbólico etc. é necessário que a disponibilidade interna do leitor esteja compatível com o tipo de leitura que vai proceder. Então, antes de qualquer coisa, uns trinta segundos de preparação ou de meditação serão excelentes. Um copinho de água também ajuda. Também, se a pessoa não estiver interiormente bem, deverá deixar a leitura para depois. Ler um texto complicado com preocupações na cachola ou com uma 'aporrinhola' qualquer atazanando é inútil.

Terceiro: Isolamento. Algum tipo de isolamento é necessário. Esses assuntos não podem ser absorvidos e compreendidos em meio à balbúrdia. Se o texto a ser lido estiver no computador, será útil algum silêncio e um pouco de privacidade, pois ler na telinha não é tão confortável quanto ler sentado em uma poltrona. Para quem sofre das veias varicosas do ânus e da parte inferior do reto é um verdadeiro suplício hemorroidal – reconheço e fico penalizado.

Quarto: Finalmente, para se ler um ensaio no âmbito nas modalidades que estou examinando neste curto texto, há um macete que não falha. É necessário ler parágrafo por parágrafo. O que é isso? Você lê um parágrafo e pára. Pensa no que leu. Discute mentalmente com o autor do texto. Elabora sobre o que leu. Concorda... Discorda... Reescreve mentalmente o que leu... Se não compreendeu, feche os olhos e relaxe. Não pense no que acabou de ler. Espere. Talvez uma forma de inspiração explique o conteúdo da informação. Se a inspiração não vier siga em frente. Pode ser que no parágrafo seguinte, ou um pouco mais abaixo, a dúvida seja sanada.

O que realmente não é possível é ler avidamente um texto místico sem refletir. Não adianta nada. Nas entrelinhas é que estão as grandes lições. Os autores místicos costumam escrever por metáforas, e deixam lacunas nos seus escritos de maneira proposital. Maldade? Não. O esforço para compreender é pessoal. Sendo assim, nada é valorizado quando a coisa vem mastigadinha, explicadinha e pronta para ser engolida. E mais: ninguém deve aceitar o que alguém escreve como a última palavra naquele assunto. É preciso refletir sobre o discurso e chegar às próprias conclusões. Dialética, é a chave. E, ainda que o assunto só possa ter uma explicação correta, cada um lerá interiormente de acordo com sua cultura e com sua experiência pessoais. Não há verdade absoluta e definitiva para o ser em processo de evolução ou de reintegração; as verdades são relativas. Por isso, repito uma vez mais: HUMILDADE!

Bem, eu não resisto a uma animaçãozinha. Cacoete de professor aposentado. Assim, tentei resumir toda essa arenga em uma singela animação. Dê uma olhada e veja se eu cometi algum equívoco. Se você não concordar, sugestão: mentalmente crie uma para você. Isso é muito bom. Sacode os neurônios.