A SEXTA-FEIRA NEGRA
DO DOUTOR BUTZANNYA

 

 

 

Rodolfo Domenico Pizzinga

Música de fundo: Bad, Bad Leroy Brown

Fonte: http://www.hetmidihuis.nl/Downloads.htm

 

 

Doutor Lindenberg Butzannya Di Butzannya era um médico ginecologista famoso de um subúrbio carioca e adorava a sua profissão. Costumava dizer às suas clientes: — Cuidem bem da pombinha para ela não ficar doentinha. Mas, apesar de ser um bom médico, gostava muito de um carteado. Era viciado em stick poker, um jogo bastante violento mas que na roda em que ele jogava as apostas só podiam ser dobradas até R$ 8,00. Era baratinho. Só para distrair. Todas as sextas-feiras ele se reunia com um grupo de amigos e jogava das nove da noite à uma da madrugada. Ninguém sabia se o Bubu (apelido carinhoso que os amigos haviam lhe dado) tinha sorte ou se realmente jogava bem. O fato é que, quando não ganhava, empatava. Mas o jogo não era caro, e como já relatei, as apostas tinham limite. O cacife era de R$ 50,00 e os prejuízos não eram grandes, coisa que o Bubu não conhecia.

Um certo dia, em 1999, o Doutor Butzannya foi convidado para jogar em uma roda de empresários. Ficou na dúvida se aceitaria o convite, pois o cacife era de R$ 10.000,00 – muito mais do que ele ganhava de salário em três meses de trabalho. E ele também não tinha o dinheiro para enfrentar aquela turma. Mas, jogador, viciado, vislumbrou uma oportunidade de ganhar um troco, ainda que jogador goste mesmo é de contar estória e não se importe muito em ganhar ou perder. Contou o fato para os parceiros de jogatina, que decidiram fazer uma vaquinha para entrarem de sócios no jogo. Afinal o Bubu era ganhador e, quem sabe, poderia ganhar uma graninha daqueles empresários. E assim foi informalmente constituída uma sociedade. Quem entrou com mais foi o Adoniran, que meteu na suça R$ 5.000,00. E os outros puseram o que puderam. Bubu se prontificou a botar no jogo R$ 2.000,00, mas pediu que ninguém contasse para a mulher, porque se ela soubesse seria capaz de fazer um escândalo. Ela já aturava de má vontade aquele jogo às sextas-feiras, mas consentia porque o Bubu era bom marido, trabalhador e o jogo era quase a leite de pato. Mas se viesse a saber que ele se metera em um jogo com cacife de R$ 10.000,00 iria ficar furibunda e era capaz de pedir o divórcio. Jogo de R$ 50,00 era pecado venial, mas jogo de R$ 10.000,00 era pecado mortal.

Enfim, o jogo foi armado para uma sexta-feira às dez horas da noite, e a casa onde aconteceria a sessão ficava em uma rua da Gávea. Ao chegar ao endereço que lhe deram, o Doutor Butzannya ficou apavorado. Em frente à casa – que era uma verdadeira mansão construída no centro de um terreno enorme – havia três seguranças armados de metralhadora em punho no meio da rua. Depois de se identificar foi autorizado a entrar na propriedade. Estacionou em um pátio muito amplo onde havia uns dez carros, a maioria importados. Sua preocupação aumentou porque, no interior da propriedade, era segurança armado pra todo lado, e ele ouvira um deles comentar: — Lá vai o otário.

Otário é o cacete, vou deixar esses empresários duros, pensou o bom ginecologista com os seus botões. Respirou fundo e se dirigiu para a mansão hollywoodiana à sua frente.

Ao entrar na mansão foi muito bem recebido e os empresários, depois de se apresentarem e de conversarem um pouco com o Doutor, propuseram que o jogo começasse. O jogo, conforme combinado, seria stick poker de cinco cartas – que o Doutor Butzannya conhecia muito bem – uma carta fechada e quatro cartas abertas valendo apostar a frente.

 

 

Com estas regras, o jogo seria violentíssimo, pois um parceiro poderia perder um cacife em uma única parada. Mas o Doutor Butzannya não deu parte de fraco; agüentou a barra calado. Ele já sabia que seria assim mesmo. Ficou combinado que os baralhos seriam trocados a cada hora e que nenhum parceiro poderia sair do jogo ganhando. Antes de começar o jogo, cada um dos jogadores colocou os R$ 10.000,00 sobre a mesa. Não havia fichas. O jogo era a dinheiro vivo, logo, é claro, acabou o milho, acabou a pipoca. Um baralho foi aberto e separadas as cartas do 6 ao rei mais os quatro ases. Eram, portanto, 36 cartas em jogo – nove cartas com quatro naipes cada uma. Não havia um carteador, e, desta forma, as cartas seriam dadas por cada um na sua vez. Também ficou estabelecido que nenhuma parada seria anulada, acontecesse o que acontecesse. Esse era um ponto de honra da roda que não era jamais negociado. Por esta norma, o parceiro que estivesse carteando, além de ter que cantar as jogadas, seria responsável pelo que pudesse ocorrer de anormal na parada. O jogo começou com seis jogadores, porque, segundo o dono da casa, o sétimo, o Leroy, estava atrasado. Entraria quando chegasse. Quando o jogo ia começar os parceiros foram gentis: convidaram o Doutor Butzannya para dar início ao carteado, já que era a primeira vez que ele participava da roda. O Doutor Butzannya ficou feliz com a deferência e pegou o baralho para embaralhar.

Logo que o bom Doutor começou a embaralhar apareceu um garçom muito bem vestido e ofereceu whisky escocês para todos. O Doutor Butzannya polidamente recusou e continuou a embaralhar enquanto todos se serviam do whisky. Jogo não casa com bebida. Esses caras vão ficar bêbados e eu vou limpá-los rapidinho, pensou o médico que havia se especializado e se dedicado a vida inteira ao estudo da fisiologia e da patologia do corpo da mulher e de seu aparelho genital, mas que, no fundo no fundo, achava que era um grande jogador de stick poker. Enquanto embaralhava pensava nos onze condutos musculomembranosos que ele examinara naquele dia. Tentou concluir se gostava mais de examinar vaginas ou de stick poker. Não conseguiu chegar a uma conclusão definitiva, pois a emoção havia tomado conta de todo o seu ser. Seu coração estava batendo muito rápido e sentia que estava meio ofegante. Tentou se controlar, mas não obteve êxito. Estava mesmo muito emocionado. Stick poker era muito melhor do que examinar vaginas, foi seu último pensamento antes de distribuir as cartas.

Então, o jogo começou. O Doutor Butzannya deu uma carta fechada para cada parceiro, e, em seguida, deu uma aberta para cada um. As cartas abertas foram:

1º jogador: Rei de paus

2º jogador: 10 de copas

3º jogador: 7 de paus

4º jogador: Ás de ouros

5º jogador: Rei de ouros

Doutor Butzannya: Dama de ouros

Fala o Ás de ouros — cantou o Doutor Butzannya.

R$ 200,00 pra começar — disse o parceiro que tinha o único Ás à vista.

O Rei de ouros acompanhou, e o Doutor Butzannya, depois de consultar a chave (a carta fechada) também acompanhou. Ele tinha na chave uma Dama de paus. Era um par colado logo na primeira mão. Estou com sorte, pensou ele, vou estraçalhar esses empresários bobocas.

O Rei de paus, o 10 de copas e o 7 de paus passaram. Ficaram, assim, três no golpe.

Nesse momento chegou quem faltava: o Leroy. Todos o cumprimentaram e o golpe prosseguiu com o Doutor Butzannya dando as cartas. Mas o Leroy não perdeu tempo: pegou um copo e se serviu de uma dose generosa de whisky. Depois voltou para assistir aquele golpe. Ninguém gosta de peru bisbilhotando um jogo, por isso o Leroy ficou a meia distância vendo o que acontecia.

Para o Ás, um sete de ouros; Valete de paus para o Rei; e Rei de espadas para a Dama do Doutor Butzannya.

Continua o Ás com palavra — cantou o Doutor Butzannya.

R$ 300,00 — falou o Ás.

Vou botar mais. Quero ver se você tem um Ás aí embaixo — falou o parceiro que tinha o Rei de ouros acompanhado do Valete de paus. — Tudo R$ 500,00.

O Doutor Butzannya estremeceu, pensou e acabou entrando na parada. O Ás também só acompanhou, o que parecia indicar que ele não deveria ter um Ás na chave, pois se tivesse talvez tivesse repicado.

Cartas. O Ás ganhou um 7 de paus e ficou com par de 7 à vista. O Rei ganhou um 8 de ouros. E o Doutor Butzannya recebeu uma Dama de copas. Fez par de Damas à vista; com a Dama de paus que ele tinha na chave fez uma trinca e estava superior e à vontade no golpe. Aquela noite parecia ser sua noite de sorte. Esses caras vão dançar, pensou o especialista em vaginas.

Falo eu que tenho o par de Damas. R$ 625,00.

Doutor Butzannya, o que é isso? Que aposta esquisita! Assim o senhor espanta a parceirada — falou rindo o parceiro que tinha o par de 7 à vista. — Tô fora parceiro. Esse meu pareco de 7 é muito pequeno para enfrentar você. E assim ficou confirmado que ele não possuía mesmo um Ás na chave.

O Rei pensou e acompanhou. — Vou ver aonde isso vai parar — disse o dono do Rei de ouros se fazendo de preocupado. Ele podia se dar ao luxo de fazer esse comentário porque, aparentemente, estava inferior no golpe. O Doutor poderia ter uma trinca se tivesse uma Dama na chave. De qualquer maneira, ele não deu uma Dama na chave para o Doutor Butzannya. Se tivesse dado, certamente não continuaria no golpe. Teria passado. Só um trouxa dançarino joga esse jogo sabendo que está inferior na parada. Optou por pensar que o Doutor Butzannya tinha um Ás na chave e pagou a aposta.

Última carta. Rei de copas para o Rei e nove de ouros para o Doutor Butzannya.

A parada, então, ficou assim:

5º jogador: Carta fechada, Rei de ouros, Valete de paus, 8 de ouros e Rei de copas.

Doutor Butzannya: Carta fechada (que, como sabemos, era uma Dama de paus), Dama de ouros, Rei de espadas, Dama de copas e nove de ouros.

À vista, então, ficaram o par de Reis e o par de Damas.

Só ficamos nós dois. O senhor, que tem o par de Reis à vista, está com a palavra — disse o Doutor Butzannya.

Então, R$ 1.000,00 pra brincar — apostou o empresário.

O Doutor Butzannya sentiu um ligeiro tremor na perna esquerda e uma fisgada em seu pênis. Ele sabia que havia ganho o golpe, pois tinha trinca de damas e seu parceiro poderia, no máximo ter dois pares. Não havia mais nenhum Rei para ele fazer uma trinca. Estava conclusivamente superior no golpe. Com moderação, própria de um ginecologista que adorava a sua profissão, disse: — Vou botar mais um pouquinho. Tudo R$ 1.285,00.

O par de Reis à vista nem pestanejou. Só disse duas palavras: — A frente. E empurrou para o centro da mesa todo o dinheiro que havia na sua frente, isto é, o que restava do cacife inicial de R$ 10.000,00. Era muita grana.

O Doutor Butzannya, delicadamente, comentou: — Infelizmente o senhor perdeu. Os seus dois pares não são suficientes para me ganhar. Paguei. Qual é o seu jogo?

Perdi? Dois pares? Eu não tenho dois pares. Eu tenho uma trinca de Reis? — E virou a chave mostrando um Rei de paus.

 

 

O Doutor Butzannya, perplexo, disse: — Não é possível. Na primeira mão aquele parceiro passou com um Rei de paus à vista. E, apontando para o jogador-empresário que havia passado na primeira mão com um Rei de paus, começou a ficar vermelho como um pimentão maduro.

É, pode ser, mas eu não me lembro — disse o jogador que 'ganhara' o golpe 'honestamente', segundo as normas da casa.

Vamos conferir esse baralho — disse o dono da casa. E emendou: — De qualquer maneira, Doutor Butzannya, o senhor sabe que não se anula uma parada no nosso jogo. Isso estava combinado e o senhor concordou. De mais a mais, quem deu as cartas foi o senhor. Vamos conferir.

Feita a conferência do baralho, a surpresa foi geral: o baralho estava com 37 cartas. Havia um Rei de paus a mais. Exatamente o segundo Rei de paus que estava na chave do parceiro ao lado do Doutor Butzannya e que lhe tomara 'honestamente' todo o dinheiro. Quando o Doutor Butzannya – que agora estava mais para Doutor Bubu do que para outra coisa – viu o quinto Rei de paus no meio do baralho – que não poderia estar ali – começou a sentir mal. Nada mais parecia fazer sentido. Copas, paus, ouros, espadas, vaginas, endométrios... Aquele carteado havia se tornado uma confusão dos infernos. Sua esposa não poderia saber jamais daquela aventura. Se viesse a saber...

 

 

É parceiro. Infelizmente aqui é assim. Perdeu, perdeu. Não se anula nada. — Comentou o ganhador. — Daqui pra frente o baralho ficará correto. Vamos tirar esse Rei de paus dobrado. O que é triste é que é a primeira vez que o senhor vem aqui e toma essa trombada logo na primeira mão. Só posso lhe pedir desculpas e desejar melhor sorte na seqüência do jogo. Mas nossas regras são implacáveis. Para todos nós. Não há parada anulada.

Mas... Eu... Eu não posso continuar. Meu dinheiro acabou. — Disse quase chorando o Doutor Butzannya Bubu.

Infelizmente Doutor, nós aqui também só jogamos com dinheiro vivo. Nem cheque nós aceitamos. Quando acaba o dim-dim o jogo chega ao fim. É o nosso lema. — Comentou o Leroy que assistira a tudo calado. — Mas não se preocupe. Eu já senti que o senhor é um parceirão. O senhor terá outras oportunidades. Nós nos reunimos aqui todas as sextas-feiras e o senhor será sempre bem-vindo. Com dinheiro vivo, claro.

Mas... — balbuciou arrasado o pobre Doutor Bubutzannya. Tremendo, vermelho como um pimentão maduro e suando muito, abaixou a cabeça, respirou fundo, despediu-se educadamente e foi embora. Ele poderia fazer mais o quê?

Ao passar pelo jardim da suntuosa mansão, ouviu um dos seguranças cochichar: — Esse otário durou pouco. Aposto que foi o Leroy que 'escalpelou ele'. Dessa vez o Doutor Butzannya não revidou mentalmente a agressão. Estava muito tonto e com uma vontade imensa de vomitar. Quando chegou à porta do seu carro, vomitou mesmo. Vomitou a alma, o Rei de paus dobrado e mais um pouco. Ao longe um cachorro latiu. Pertinho um pássaro piou.

É. O Doutor Butzannya, médico ginecologista famoso e que adorava a sua profissão, havia sido escalpelado vivo, mas não pelo Leroy, que era conhecido como Leroy Brown – um empresário-banqueiro de bicho fortíssimo e que tinha um péssimo humor. Quem o depenara honestamente fora o Chulé, outro empresário-banqueiro de bicho da Zona Oeste, que tinha mesmo um chulé infernal. Mesmo de sapato o fedor fedia a fedor podre putrefaciente. Mas, ainda que não houvesse acontecido o trágico incidente, e que, a bem da verdade, no meu entendimento, a parada devesse ter sido anulada – e aconteceu porque, incompreensivelmente, o baralho não foi examinado carta por carta e naipe por naipe – o Doutor Butzannya provavelmente não escaparia. Acabaria perdendo mesmo e ficando com cara de Bubu chorão. Como ficou. Os caras eram profissionais e o Doutor Butzannya apenas um amador que era viciado em stick poker. Quando jovem talvez tivesse assistido A Mesa do Diabo (The Cincinnati Kid), filme de 1965, e pensado que poderia fazer a mesma coisa que o Edward G. Robinson fez com o Steve McQueen naquele stick poker. Mas isso só acontece no cinema. Quem se mete com malandro acaba caindo duro. O Steve McQueen, no filme, era malandro e profissional de baralho, mas o Edward G. Robinson era um pouco mais malandro e mais profissional do que ele e o deixou durinho em um único golpe. Exatamente o último!

Quem subestima o adversário acabará sempre se enganando e dando a ele poderes inimagináveis sobre si. E como escreveu alguém: Quem subestima o agora, pode pagar o preço do desencanto depois... Às vezes, paga na mesma hora!

Essa foi a sexta-feira nigérrima do Doutor Lindenberg Butzannya Di Butzannya – um médico ginecologista famoso de um subúrbio carioca que adorava a sua profissão... mas que acabou tendo que enfrentar o dissabor de passar por um Bubu choramingão por se achar um ás do stick poker. Eu vou ficar aqui torcendo para ele não fazer outra besteira igual a essa.

 



 

Websites Consultados

http://es.geocities.com/gtanunciata/historia.html

http://www.wmonline.com.br/?area=figuras-lista&categoria=Baralho&pagina=27